שִׁוִּיתִי יְהוָה לְנֶגְדִּי תָּמִיד
Há muito tempo, num reino distante, um governante decidiu que um povo inteiro serviria apenas para trabalhar. Tomou-lhes a terra, o tempo e o descanso. Mandou que fizessem tijolos de sol a sol e, quando viu que eles continuavam de pé, mandou que fizessem mais, com menos palha e sob vigias mais duros.
O governante esperava que o cansaço fizesse o resto. Que a vida dura quebrasse o espírito deles. Gente exausta não sonha, pensava ele, e gente que não sonha não se levanta. Ele estava errado.
À noite, quando os vigias se recolhiam, as famílias se juntavam na porta das casas. Pouca coisa se dizia nessas horas. Os mais velhos contavam às crianças de onde tinham vindo, quem tinham sido seus avós e que promessa Deus havia feito a eles. As crianças ouviam a mesma história tantas vezes que aprendiam de cor, e a repetiam aos irmãos menores. Assim o povo guardava a memória que o governante não conseguia tomar.
Quando alguém adoecia, os vizinhos dividiam entre si a cota de tijolos dele, para que o capataz não percebesse a falta. Quando faltava pão numa casa, aparecia pão na porta sem que ninguém dissesse quem trouxe. As mães que perdiam filhos não choravam sozinhas. Ninguém ali tinha muito, mas ninguém ficava sem nada.
E eles rezavam. Às vezes baixinho, com medo dos vigias, às vezes em choro aberto, quando a dor passava do limite. Pediam a Deus que se lembrasse deles. Muitos passaram a vida inteira pedindo isso sem ver a resposta, e mesmo assim ensinaram os filhos a pedir também. Não tinham garantia nenhuma de que o sofrimento acabaria enquanto estivessem vivos. Tinham a certeza de que ele não duraria para sempre, e essa certeza bastava para levantar de manhã.
Gerações passaram assim. Até que um dia o clamor foi ouvido, e o povo saiu.
A saída foi uma festa, mas logo veio o deserto. Ali a fome era outra, a sede também, e o caminho parecia não ter fim. Houve quem quisesse desistir e quem tivesse saudade da comida do cativeiro. Houve brigas, desconfiança e dias em que a fé parecia ter ficado do outro lado do mar.
O que segurou o povo no deserto foi o mesmo que o tinha segurado no cativeiro. As famílias armavam suas tendas lado a lado. A água era dividida, e o mais forte carregava a carga do mais fraco. Quando um grupo se perdia, os outros esperavam. E toda noite, ao redor das fogueiras, os mais velhos contavam outra vez a velha história, agora com um capítulo novo: o dia em que Deus os tirou de lá.
A travessia durou muitos anos. Muitos que saíram não chegaram. Mas os filhos chegaram, e chegaram sabendo andar juntos, porque tinham aprendido isso com os pais, nas noites de cativeiro e nas fogueiras do deserto.
O reino daquele governante foi esquecido há muito tempo. Do povo que ele tentou apagar, continuam contando a história até hoje.
Folha de Florianópolis
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