A inteligência artificial entrou na rotina dos estudantes brasileiros antes que muitas escolas conseguissem definir como trabalhar com ela. Segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025, realizada pelo Cetic.br, 65% dos usuários de internet de 9 a 17 anos utilizaram ferramentas de inteligência artificial generativa para alguma das finalidades investigadas. Mais expressivo ainda é o fato de que 59% recorreram a essas ferramentas para pesquisas escolares ou estudos.
O levantamento, realizado entre março e agosto de 2025, ouviu crianças, adolescentes e seus responsáveis em diferentes regiões do país. Ele revela uma mudança importante nos hábitos digitais, mas não demonstra que os estudantes estejam aprendendo mais. Essa distinção deveria orientar o debate educacional.
A escola começa a conviver com uma situação inédita em sua escala: o estudante pode receber, em poucos segundos, uma redação organizada, a solução de uma equação ou uma explicação sobre determinado fenômeno. A resposta pode estar correta, bem escrita e adequada ao enunciado. Ainda assim, quem a entregou talvez não consiga explicar como chegou àquela conclusão.
Estamos diante de uma questão que ultrapassa a discussão sobre permitir ou proibir ferramentas digitais. Precisamos descobrir em quais condições a inteligência artificial favorece a aprendizagem e em quais apenas substitui atividades intelectuais que deveriam ser realizadas pelo estudante.
A diferença aparece com clareza na Matemática. Imagine uma situação hipotética em que dois alunos recebem o mesmo problema. O primeiro solicita à inteligência artificial a resolução completa e copia o procedimento. O segundo tenta resolver, identifica onde encontrou dificuldade e utiliza a ferramenta para obter uma explicação adicional, comparar estratégias e testar seu raciocínio.
Os dois podem apresentar respostas idênticas. Entretanto, a experiência de aprendizagem pode ter sido profundamente diferente.
Na perspectiva da Análise do Comportamento, aprender envolve uma história de interações com o ambiente e mudanças nas condições em que determinadas respostas são produzidas. Para a escola, isso significa organizar oportunidades de ensino nas quais o estudante desenvolva repertórios que possam ser utilizados com autonomia, mantidos ao longo do tempo e aplicados em novas situações.
O uso da inteligência artificial precisa ser examinado a partir desse princípio. Uma ferramenta pode ajudar a apresentar exemplos graduais, esclarecer dúvidas e oferecer diferentes formas de explicar um conteúdo. Mas também pode facilitar a esquiva de tarefas difíceis, quando o estudante descobre que obter uma resposta pronta exige menos esforço imediato do que compreender o problema.
Isso não significa condenar a facilidade tecnológica. O ensino deve eliminar dificuldades desnecessárias, oferecer apoio e permitir avanços progressivos. O cuidado está em não confundir a redução de obstáculos à aprendizagem com a retirada das oportunidades de aprender.
A preocupação encontra respaldo no Relatório Global de Monitoramento da Educação de 2023, da UNESCO, dedicado à tecnologia educacional. O documento aponta a escassez de evidências robustas e independentes sobre os benefícios de muitas soluções digitais. Também observa que a distribuição de equipamentos, isoladamente, não assegura melhorias de aprendizagem.
É necessário reconhecer, entretanto, o argumento mais forte dos defensores da inteligência artificial. Professores trabalham com turmas heterogêneas, dispõem de tempo limitado e enfrentam dificuldades para oferecer devolutivas individualizadas. Ferramentas bem construídas podem ampliar o acesso a explicações, apoiar o planejamento e ajudar a identificar erros recorrentes. Rejeitar essas possibilidades seria ignorar necessidades reais da escola.
O problema surge quando uma possibilidade tecnológica é apresentada como resultado pedagógico comprovado. Uma plataforma capaz de gerar exercícios, corrigir respostas ou produzir relatórios pode economizar tempo. Isso tem valor. Mas a economia de tempo não comprova, por si, que os estudantes passaram a compreender melhor frações, interpretar textos ou formular argumentos.
O Ministério da Justiça e o Ministério dos Direitos Humanos lançaram, em outubro de 2026, um guia sobre os usos da inteligência artificial na infância e na adolescência, elaborado com cooperação da UNESCO. O documento inclui orientações para famílias e educadores sobre segurança, privacidade, pensamento crítico e relações de crianças e adolescentes com sistemas automatizados. São preocupações necessárias, porque a inteligência artificial já participa de experiências que vão além das atividades escolares.
Contudo, proteger os estudantes e melhorar sua aprendizagem são responsabilidades complementares, que exigem formas diferentes de acompanhamento.
Uma política educacional consistente deveria começar pela formação dos professores. Não basta apresentar comandos para produzir planos de aula ou listas de exercícios. É preciso discutir como a ferramenta modifica as atividades propostas, o tipo de ajuda oferecida ao estudante, os critérios de avaliação e as oportunidades de desenvolver autonomia intelectual.
Isso exige tempo de estudo, colaboração entre docentes e acompanhamento da gestão escolar. Também requer atenção à desigualdade de acesso, aos custos de manutenção, à qualidade dos sistemas e à proteção dos dados pessoais dos estudantes.
Há uma consequência direta para a avaliação. Se a escola continuar verificando apenas o produto final de uma tarefa, terá cada vez mais dificuldade para distinguir aquilo que o estudante sabe fazer daquilo que uma ferramenta produziu para ele. Será necessário combinar produções com apoio tecnológico e situações em que o aluno explique seu raciocínio, justifique escolhas, enfrente novos problemas e demonstre o que consegue realizar sem a mesma assistência.
Para os gestores públicos, isso sugere uma mudança de prioridade. Antes de contratar uma plataforma para toda a rede, vale definir qual dificuldade de aprendizagem se pretende enfrentar, como os professores serão preparados, quais evidências serão coletadas e em que condições a iniciativa será revista ou interrompida.
Projetos-piloto bem acompanhados podem oferecer respostas mais úteis do que a compra simultânea de soluções para centenas de escolas. Seus resultados precisam considerar a aprendizagem anterior dos estudantes, as condições de trabalho dos docentes e as diferenças entre turmas, evitando atribuir à tecnologia avanços que podem decorrer de outros fatores.
A inteligência artificial provavelmente continuará transformando a produção e o acesso ao conhecimento. Sua presença na escola, porém, não determina automaticamente uma transformação do ensino.
A decisão importante para uma rede municipal ou estadual não será quantos professores receberam treinamento para utilizar ferramentas, nem quantos estudantes acessaram determinada plataforma. Será verificar se, depois dessas experiências, os alunos conseguem ler com maior compreensão, resolver problemas com mais autonomia e utilizar o que aprenderam diante de situações novas.
Essa é a evidência que deveria orientar o próximo investimento educacional.
Folha de Florianópolis
Comentários
Para comentar realize o login em sua conta!
Login Cadastre-se